Milton Nascimento fala do inicio da carreira em Alfenas

fonte: Jornal do Comércio

Em 1967, um jovem, e quase desconhecido compositor, surpreendeu, ao classificar três canções na fase nacional do concorrido II Internacional da Canção. O compositor chamava-se Milton Nascimento. Suas composições Maria, minha fé, Morro velho, e Travessia, que ficou em segundo lugar (perdeu para hoje pouco lembrada Margarida, de Guarabyra). Travessia (com Fernando Brant) foi o passaporte para o carioca (criado em Minas Gerais), Milton ser reconhecido de imediato no Brasil e no exterior. Não era seu primeiro festival no Rio. No ano anterior havia participado do II Festival da MPB, na TV Excelsior, como intérprete. Defendeu Cidade vazia (Baden Powell e Lula Freire). E naquele mesmo ano, Elis Regina, com faro aguçado para descobrir talentos, gravou a sua Canção do sal. O resto é história.

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No show, Milton Nascimento, sua banda e mais os amigos de longas datas, Wagner Tiso e Lô Borges, repassam meio século de uma das mais importantes carreiras de um músico popular no Brasil (contando do primeiro grupo, os W’s Boys, formado em Alfenas, Minas Gerais, em 1962). Na entrevista a seguir, Milton fala sobre essa trajetória de 50 anos, sobre a música brasileira, seu engajamento em movimentos sociais, e tece uma louvação à amizade e aos amigos e parceiros Wagner e Lô.

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JORNAL DO COMMERCIO – Milton, são 70 anos de idade, 50 desde os W's Boys, 40 do Clube da Esquina, como equalizar tantas músicas e memórias em um único show?

MILTON NASCIMENTO – Realmente não é fácil. Esse show começou a ser produzido no ano passado, quando fui dirigido pelo Regis Faria numa série de apresentações que rodou o Brasil inteiro. Regis separou todos os discos da minha carreira e foi organizando um set list. Assim que ele terminou a pesquisa, foi até minha casa e mostrou o que tinha feito. Eu gostei tanto que quase não modificamos nada no formato. Fizemos alguns ensaios na minha casa e fomos direto pra estrada. Depois de quase um ano tocando em praticamente todos os Estados, nós encerramos o projeto com a gravação de um DVD, em novembro do ano passado, no Rio de Janeiro. E este trabalho deve ser lançado ainda no fim do mês. Na gravação participaram Wagner Tiso e Lô Borges. O resultado foi tão bom que decidimos continuar em 2013.

JC – Ao mesmo tempo é um encontro de músicos que também tem carreiras próprias e consagradas. Há um momento em que Lô e Wagner mostram suas músicas de carreira solo?

MILTON – Durante a turnê a gente conversa sobre as coisas que cada um tem vontade de fazer. Tudo isso num clima de liberdade total. E eu não poderia deixar de fazer um show sem que Lô e Wagner fizessem suas próprias canções, apesar de que a obra de nós três está toda interligada pela nossa amizade. Então, dificilmente alguém tocaria uma música que não tivesse haver com o outro.

JC – Como é que funciona esta amizade tão antiga? Vocês se veem com frequência, trocam ideias musicais, agora que o computador permite esta facilidade?

MILTON – Mesmo que o computador permita essa facilidade, encontrar os amigos fora do mundo virtual ainda é a melhor das sensações que pode existir. Wagner é o meu amigo mais antigo, começamos a tocar na noite quando eu tinha 13 e ele 11 anos de idade. A gente virou profissional no mesmo dia, numa dessas boates que a gente costumava tocar tanto em Três Pontas quanto em outras cidades do sul de Minas. Já Lô tem um laço familiar comigo muito forte, já que a família dele sempre me considerou o décimo segundo filho dos Borges. Nós fizemos juntos sua primeira música, Clube da Esquina. Depois, gravamos um disco (Clube da Esquina) que até hoje todo mundo lembra. E eu só posso dizer que tenho muita sorte de ter esses dois companheiros ao meu lado.

JC – Em 1966 havia espaço para um compositor como você, jovem, com uma música sofisticada aparecer na TV. Hoje TV grande parte das rádios optaram pela música, digamos, popularesca. Até onde se ganha e se perde com isso?

 

 

MILTON –As coisas mudam, não tem jeito e não adianta parar de trabalhar, ficar se lamentando com a falta de espaço. Não podemos desistir, nunca. Hoje em dia tudo segue uma tendência. De preferência, aquela que for mais lucrativa. É assim que eles funcionam. E a gente não pode deixar de seguir nossa vida por causa disso.

JC – Numa entrevista à revista Bondinho, em 1972, você comentava que, entre os grandes nomes saídos dos festivais, foi dos poucos que ficou no Brasil e aguentou a barra da ditadura. Pode falar sobre este comentário, e sobre aqueles tempos?

MILTON –Desde o início da minha carreira eu sempre estive envolvido em temas políticos e sociais. Inclusive, muito pouco é dito, mas minha militância começou ainda durante a ditadura, quando eu viajava o País inteiro fazendo shows em universidades e apoiando o movimento estudantil através da minha atuação como artista. E eu não poderia ajudá-los estando fora do Brasil, então decidi ficar. Foi uma fase muito dura, principalmente por conta das perseguições e do cerco que a gente sofria. Eu até cheguei a dizer que só sairia morto do Brasil. Depois disso, eu participei ativamente em projetos contra todo tipo de opressão. Gravei em 1991 o disco Txai pelos direitos dos índios, dos ribeirinhos e de todos os povos da floresta. Em 1982, junto com Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra fizemos o projeto Missa dos Quilombos, que causou muita polêmica. Através deste trabalho, formou-se uma união inédita entre entidades como a CNBB (graças ao arcebispo Dom Hélder Câmara), o movimento dos negros, o movimento dos índios e a pastoral da terra. E esses trabalhos me levaram a receber o prêmio Rain Forest, uma espécie de “Nobel sem política”. Também atuei na campanha das Diretas Já e até contra o apartheid na África do Sul. E no ano passado fui até Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, participar de um grande ato a favor dos índios da Nação Guarani, que estão entre os povos mais explorados de toda história da América Latina. E, acreditem, ainda hoje vivem numa situação de extrema miséria, abandono e descaso dos governos estaduais e federais. Enfim, sempre que vejo algo que vale a pena lutar, estou dentro.

JC – E daquela geração você foi o que teve aceitação no exterior mais rápida. Travessia já lhe levou para os EUA. Não pensou em fazer carreira nos Estados Unidos e ficar por lá, como tanta gente ficou?

MILTON –Eu não fiquei porque nunca senti necessidade de morar fora do Brasil pra alavancar minha carreira. Eu sempre consegui fazer as coisas morando aqui. Todos os discos que eu gravei nos EUA, recebi o convite quando estava no Brasil.Native dancer, disco que gravei com Wayne Shorter em 1974, foi um dos maiores sucessos daquela década e eu morando o tempo todo no Rio. Recebi convites para gravar com Paul Simon, James Taylor, Peter Gabriel, Pat Metheny, Duran Duran e Herbie Hancock sem nunca ter saído do meu País.

JC – Uma de suas velhas amizades é o percussionista Naná Vasconcelos, que chegou ao Rio quando você já era famoso. Você foi dos primeiros, ou o primeiro grande nome da MPB a reconhecer o talento dele. Pode falar um pouco sobre isso?

MILTON– Naná chegou na minha casa no início dos anos 1970 e disse: “Vim do Recife só pra tocar com você”. E como eu estava com o violão passando algumas músicas para o disco que ia gravar, ele foi lá na cozinha pegou umas panelas, juntou com umas coisas que estavam espalhadas lá em casa e começou a tocar. Eu nem terminei a música e já perguntei: “Escuta, o que você vai fazer segunda-feira?” Ele respondeu: “Nada”. E, quando percebi, ele já estava no estúdio dominando tudo. Desde então, nossos caminhos ficaram ligados pra sempre. Eu tenho uma alegria enorme de ter conhecido Naná. Além de ser um dos caras mais honestos e gentis que eu conheço, ainda por cima é um artista completo.

JC – Os 50 anos de carreira são contados a partir do W"s Boys. Teria alguma música desta época no show? Os W's Boys tinham músicas próprias?

MILTON – Esse grupo foi fundado em Alfenas (MG) para fazer bailes em toda região sul de Minas. E nós tocávamos as músicas que faziam sucesso naquele tempo, era um conjunto de baile. O grupo em si não tinha música própria, mas Wagner e eu já fazíamos algumas coisas por fora.

 

 

JC – Dá pra antecipar o roteiro deste show, uma travessia de meio século? Ele tem ainda quantas datas?

MILTON –O concerto já foi gravado no ano passado, no Rio de Janeiro e o material deve ser lançado até o final deste mês pela MP,B Produções em parceria com a Universal e o meu selo, Nascimento Música. E assim como fizemos no Rio, neste show eu também vou estar acompanhado da Banda 5, com Wilson Lopes (guitarra), Lincoln Cheib (bateria), Kiko Continentino (piano), Widor Santiago (sax) e Gastão Villeroy (baixo). Preparamos um repertório com muitos sucessos da minha carreira, além da participação mais que especial dos meus amigos Wagner Tiso e Lô Borges. É claro que sucessos comoFé cega faca amoladaVera Cruz, Coração de estudante e Nos bailes da vida não devem ficar de fora.

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