PMs mortos ensinaram filho a dirigir e a atirar, diz testemunha

SÃO PAULO – Os pais do adolescente Marcelo Pesseghini, de 13 anos, principal suspeito de matar a família em São Paulo, teriam ensinado o jovem a atirar e a dirigir, segundo o depoimento à Polícia Civil de um policial militar vizinho da família e colega de trabalho da cabo Andréia Pesseghini, mãe de Marcelo. De acordo com o delegado Itagiba Franco, que investiga o caso, o PM, identificado apenas como soldado Neto, contou que, enquanto a colega ensinou o menino a dirigir, o marido dela, o sargento da Rota Luís Marcelo Pesseghini, deu instruções a Marcelo de como atirar. Nesta quinta-feira, o procurador-geral de Justiça, Márcio Fernando Elias Rosa, designou os promotores Norberto Joia e André Luiz Bogado Cunha, do Tribunal do Júri, para acompanhar as investigações sobre o caso.

O soldado Neto foi a primeira pessoa a chegar à casa onde as vítimas foram encontradas, na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo. Ele achou estranho o fato de Andréia não ter comparecido ao 18º Batalhão da PM para trabalhar e foi à casa dela por volta das 12h de segunda-feira. Como não encontrou ninguém, voltou à tarde com outro soldado. Os dois teriam pulado o muro e encontrado os corpos.

Entenda o caso:
Disparo
Andréia Regina Bovo Pesseghini, de 36 anos, o sargento da Rota Luís Marcelo Pesseghini, a mãe da policial militar, Benedita de Oliveira Bovo, de 67 anos, a tia da policial, Bernadete Oliveira da Silva, de 55 anos, e o filho do casal, de 13 anos, foram encontrados mortos em duas casas da família que ficam no mesmo terreno. Os corpos das vítimas deixaram o Instituto Médico-Legal (IML) na Zona Oeste de São Paulo no início desta tarde.

Os corpos serão velados no cemitério Gethsemani, no km 23 da Via Anhanguera, em São Paulo. Só Bernadete Oliveira da Silva será enterrada neste cemitério. Os demais corpos serão levados para Rio Claro, no interior do estado, em comboio pela Polícia Militar.

Menino canhoto
Segundo o coronel Benedito Meira,"o menino era canhoto, o disparo foi feito do lado esquerdo da cabeça dele e a arma estava debaixo do corpo do adolescente". No entanto, ele ressaltou que a polícia não descarta que outras linhas de investigação possam aparecer nos próximos dias. No boletim de ocorrência registrado pela Polícia Civil consta que o adolescente encontrado morto "empunhava a arma na mão esquerda, debaixo do corpo".

Nesta terça-feira, Fábio Luiz Pesheghini, irmão de Luís Marcelo, afirmou que o sobrinho não era canhoto. "Pelo que eu sei ele era destro. Eu tenho quase certeza que ele era destro”, disse. Segundo Fabio, o sobrinho era “tranquilo, uma criança normal, que não dava trabalho para os pais, mal saía de casa”. Ele disse desconhecer se o irmão e a cunhada recebiam ameaças.

O adolescente tinha fibrose cística, doença genética que afeta o funcionamento de secreções do corpo, levando a problemas nos pulmões e no sistema digestivo. Segundo o capitão Laerte Araquém Fidelis Dias, do 18º Batalhão da 1ª Companhia da Polícia Militar, na Freguesia do Ó, a cabo Andréia, que era subordinada a ele, recebeu a previsão de que o filho só viveria até os quatro anos. Dias a definiu como uma funcionária exemplar.

"Excelente funcionária, alegre, trabalhadora e esforçada. Mesmo a gente sabendo deste problema do filho – o primeiro parecer médico é que ele viveria quatro anos – ela tinha o astral lá em cima", disse o capitão. Ele afirma ter encontrado com o menino duas ou três vezes, que não aparentava fisicamente ter qualquer problema e o definiu como tímido.

O capitão Dias trabalhava com Andréia há dois anos. Segundo ele, ela estava afastada das ruas por um problema de coluna – a cabo possuía pinos metálicos na coluna e fazia fisioterapia no Hospital das Clínicas. Ele disse nunca ter ouvido relatos de problemas conjugais.

Investigações
O comandante da PM negou que os policiais militares mortos tivessem problemas psicológicos ou mesmo que já tenham sido investigados pela Corregedoria da corporação.

Ainda segundo o comandante da PM, ao menos duas armas foram apreendidas na residência, um revólver calibre 32, encontrado em uma mochila junto com outros pertences do menino logo na porta de entrada, e uma pistola calibre .40, de propriedade da Polícia Militar mas que estava de posse da cabo. "O revólver era da policial, que ficou com a arma do pai, após o falecimento dele", explicou Meira.

O oficial afirmou que foram efetuados ao menos cinco tiros dentro da casa, todos compatíveis com um pistola .40. Apesar disso, apenas exames de balística deverão comprovar se os disparos foram feitos pela pistola encontrada sob o corpo do garoto morto. "O que os peritos apuraram aqui é que não tem nenhum estojo diferente do de .40 na residência."

Além disso, a perícia localizou cinco cartuchos de pistola .40 deflagrados, além de um carregador com outros projéteis não deflagrados e mais um na câmara de disparo da arma, perfazendo um total de 14, justamente a capacidadetotal de um carregador.

Além do exame de balística da arma, um conjunto de provas e perícias deverá ser realizada ainda na madrugada desta terça-feira, segundo Meira. "Por exemplo, o exame toxicológico dos corpos. Será que essas pessoas tomaram algum tipo de medicamento, alguma substância que as deixaram adormecidas?", questionou.

 

O delegado convocou vizinhos da família para prestar depoimento. Franco quer saber de declarações à imprensa de que moradores da rua teriam ouvido barulhos de tiros. Uma vizinha também teria dito a jornalistas que a mãe de Marcelo costumava pedir ao filho para tirar o carro da garagem e guardá-lo.

Em declaração à imprensa nesta tarde, o delegado Itagiba contou que um amigo de Marcelo Pesseghini relatou que o garoto costumava dizer aos colegas que aquele seria o seu último dia na escola, o que causou estranhamento.

– No mesmo depoimento que esse amigo (o que afirmou que o adolescente pretendia matar a família e virar matador de aluguel) deu, ele disse que, de uns tempos para cá, o garoto estava sempre com um comentário: “Hoje é meu último dia na escola. Amanhã já não volto mais” – acrescentou Itagiba Franco.

Segundo o delegado, com 1,60m de altura, Marcelo tinha estatura e condições físicas de dirigir e segurar numa arma. Itagiba Franco classificou de suposições informações divulgadas pela imprensa sobre a presença de sangue no corpo de Marcelo e hematomas no corpo dele.

— Não chegou nada oficialmente para nós ainda. Pedi que uma equipe fosse até o Instituto de Criminalística para colher possíveis informações preliminares, mas nada chegou até nós até esse momento — disse Franco.

Delegado fica irritado com críticas à condução do caso

O delegado também disse estar convicto em relação aos rumos da investigação que apontam o adolescente como autor dos tiros e acrescentou que os questionamentos sobre o trabalho da polícia são comuns porque "nossa cultura não está acostumada a esse tipo de investigação de crime".

— Se for realmente atribuído (o crime) ao Marcelo, a nossa cultura não está acostumada com isso. Os Estados Unidos, sim. Lá, garotos que têm um comportamento aparentemente normal, de repente têm um treco na cabeça e saem atirando em todo mundo — disse.

O delegado criticou o fato de adolescentes como Marcelo terem acesso fácil a jogos violentos de videogame — o adolescente foi descrito como um menino caseiro, que gostava de jogar videogame — e salientou que a intenção da polícia não é denegrir a família do jovem.

— Não quero denegrir (a família). Quero estabelecer a verdade — disse Franco, acrescentando:

— Estou conduzindo essa investigação serenamente, convicto de que estou trabalhando certo. Se amanhã alguém aparecer com uma pista de que não é o garoto, que venha até nós.

O delegado criticou suposições em relação ao caso por parte de especialistas ouvidos pela imprensa.

— Estou me lixando para o que (os especialistas) estão pensando. Tenho a consciência tranquila de policial experiente — cutucou.

O delegado Itagiba Franco espera laudos do Instituto Médico Legal (IML) e do Instituto de Criminalística (IC) nos corpos, no local do crime, e em objetos encontrados na casa e no carro que o adolescente usou para ir até a escola onde estudava para concluir o inquérito. Disse que a única linha de investigação da Polícia Civil até o momento aponta para o adolescente.

Surpresa com a fala de coronel

O delegado-geral de Polícia Civil de São Paulo, Maurício Blazeck, disse nesta quinta-feira não acreditar nas primeiras declarações dadas pelo coronel Wagner Dimas, comandante do 18º Batalhão de Polícia Militar, onde trabalhava a cabo Andréia Pesseghini.

Para a Rádio Bandeirantes, na quarta-feira, o coronel disse que a cabo havia colaborado com informações para uma suposta investigação contra colegas policiais envolvidos em roubos de caixas eletrônicos. Nesta quinta-feira, o oficial voltou atrás e disse que as denúncias da cabo não foram feitas.

— Da mesma forma que a imprensa, a gente também se surpreendeu (com as primeiras declarações do coronel), porque isso não se encontrava na dinâmica do crime – ressaltou Maurício Blazeck.

O delegado-geral acrescentou:

— Não parece, até o momento, que isso tenha ocorrido (ligação entre a declaração do coronel e a morte da família) — afirmou.

Dimas prestou depoimento nesta quinta-feira na Corregedoria e no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso. O delegado Itagiba Franco disse que o oficial falou que talvez tenha sido mal interpretado.

– Soube dessa entrevista (à Rádio Bandeirantes) e entrei em contato com o Comando da PM, no intuito de chamar o coronel para prestar esclarecimentos. Hoje, ele nos disse que não existe nada nesse sentido (investigações contra PMs por roubo) envolvendo a policial militar Andréia. Disse que na entrevista de ontem, ele talvez não tenha sido claro, ou foi mal interpretado – disse o delegado.

Dimas iria conceder uma entrevista ao telejornal SPTV, da TV Globo, nesta quinta-feira, mas, muito nervoso, cancelou sua participação para explicar o episódio. Ele precisou tomar calmante.

Nesta quarta-feira, o Comando da Polícia Militar, em nota divulgada à noite pela sala de imprensa da corporação, “reafirma que não houve qualquer denúncia registrada na Corregedoria da PM, ou no Batalhão, por meio da Cabo Andréia Pesseghini contra policiais militares”.

Disse também que “foram consultados arquivos da Corregedoria, do Centro de Inteligência e do próprio Batalhão, e nada foi identificado” e que “será instaurado um procedimento para apurar as declarações do Coronel Wagner Dimas Alves Pereira, Comandante do 18º Batalhão, não alterando em nada o rumo das investigações”.

Policiais militares do 18º Batalhão já foram alvos de investigação interna por susposta participação em grupos de extermínio, a pedido do coronel José Hermínio Rodrigues, assassinado a tiros em 2008. Rodrigues assumira pouco antes o comando de policiamento da Zona Norte de São Paulo com a missão de combater a ação desses grupos naquela região da cidade. Os dois acusados pelo assassinato do coronel Hermínio, o ex-soldado Pascoal dos Santos Lima e o ex-sargento Lelces André Pires de Moraes Júnior, foram absolvidos pela Justiça Militar. Ambos estavam lotados no 18º e fariam parte do grupo conhecido como “Matadores do 18”, em referência ao batalhão.

FONTES: SITE JORNAL O GLOBO RJ E SITE G1 SP.

You may also like...

0 thoughts on “PMs mortos ensinaram filho a dirigir e a atirar, diz testemunha”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *