Entrevista exclusiva com o escritor Eloésio Paulo

Eloésio Paulo: O poeta das inquietações

 

Assertivo e mordaz, o poeta Eloésio Paulo nos presenteia com Homo hereticus – polemas

 

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 Por Patricia de Oliveira

 

Com uma sensibilidade aguda, um senso crítico apurado e uma fina percepção estética, a poesia de Eloésio Paulo transpõe a realidade com sua escrita imagística, curiosa, inusitada… Em seu recente livro Homo hereticus – polemas, ele fala de muitas coisas. Quiçá poderemos encontrar entre as 91 páginas que compõem o livro, alguns personagens de Alfenas que podem ser descobertos aqui e acolá; basta um segundo mergulho em seus poemas. Sem citar nomes, ele dá ao leitor mais atento a capacidade de desvendar personagens conhecidas de nossa sociedade. E isso é no mínimo instigante. Eloésio Paulo nunca passa despercebido. Nunca escreve sem mexer com algo, sem provocar, sem incomodar, sem fazer rir ou chorar. E é essa a essência de sua poesia. O mais curioso em seu livro é que quem conhece um pouco de Alfenas e alguns personagens mais “folclóricos” – humoristicamente falando – vai reconhecer em um ou outro poema, alguns deles. É surpresa garantida.

O prefácio, brilhante, é do escritor e dramaturgo Waldir de Luna Carneiro, 93 anos: “Eloésio Paulo é um D’Artagnan de bisturi. Homo hereticus são furiosas, divertidas e curtas estocadas que lembram Shakeaspeare: ‘A concisão é a alma da inteligência’. (…) Aqui, um pequeno armazém de coisas para fazer rir, uma harpia escarnecedora e demolidora sobre o nosso tempo, alertando o leitor das enganosas miragens que o assustam e obscurecem numa primeira leitura.”

Sobre o prefácio do escritor e amigo Waldir de Luna Carneiro, Eloésio salienta: “Ele ter prefaciado o livro foi, para mim, uma grata e honrosa surpresa.”

Eloésio Paulo é pós-doutor em Literatura e professor da Universidade Federal de Alfenas. Jornalista, atuou na Folha de São Paulo e colaborou com O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e O Globo, entre outros. Nasceu em Areado, MG, em 1965. Publicou Teatro às escuras – uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (dissertação de mestrado, 1987), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2007), Primeiras palavras do mamute degelado (2000), Cogumelos do mais ou menos (2005) e Inferno de bolso (2007).

Para o escritor Luiz Ruffato, Eloésio Paulo é “a mais original voz do cenário da Literatura brasileira contemporânea”. Confira a entrevista exclusiva que o Alfenas Agora fez com o renomado poeta, em especial sobre seu livro mais recente.

“Aventurar-se no mundo sem fórmulas prontas, enfrentar o mistério da linguagem, requer disposição para enfrentar o mistério da vida. E é muito mais cômodo acreditar em ideologias, em conjuntinhos de repostas prontas, mesmo que no fundo todo mundo tenha um grande mal-estar por intuir que esses catecismos ideológicos são mentirinhas para adular a sua preguiça mental.”  Eloésio Paulo

Alfenas Agora – Conte um pouco sobre Homo hereticus – polemas, seu mais recente livro de poemas. Como ele surgiu, o que o motivou a escrevê-lo e a publicá-lo?
Eloésio Paulo – A maioria dos poemas eu fiz nos últimos anos. Tem alguns um pouco mais antigos, mas quase posso dizer que o livro saiu inteiro, como um acerto de contas com a minha formação religiosa e outras ilusões. Resolvi publicá-lo um pouco por farra, porque ainda tenho uma montanha de encalhes chamada Jornal para eremitas. É que tenho a mania de publicar livros para mim, e achava importante nesse momento fazer o tal acerto de contas.

Sobre o título que deu à obra. Muitos dos seus títulos, em primeiro momento, causam certa estranheza. Por que o nome em latim: Homo hereticus?
Bom, tem um trocadilho óbvio com Homo erectus, né? Mas eu já havia trocadilhado o nome da nossa espécie num poema bem antigo e resolvi reciclar a paródia. Pelo tom dos poemas, achei que a melhor palavra para defini-los era a heresia. Pelo menos acho que as pessoas que lerem, sobretudo as religiosas, vão achar o livro herético. Mas também tem outros trocadilhos possíveis e presentes nos poemas: erótico, erético e assim por diante…

 

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“A poesia consiste em estar disposto, o tempo todo, a fazer tabula rasa
do que a gente sabe de si e do mundo.” Eloésio Paulo

Quando você começou a se interessar pela poesia?
Engraçado, outro dia eu estava pensando nisso. Não me lembro de poesia na minha infância, nem mesmo nos livros da escola. Acho que as professoras de português eram, e ainda são, pouco treinadas na sensibilidade para a poesia, então elas pulam ou fazem de conta que não existe nenhum poema no livro. Assim, foi com a queridíssima Dacha, no segundo colegial, que comecei a me interessar por poesia. Acho que ela devia dar ênfase a isso, não me lembro bem, ou pelo menos permitia que a gente se interessasse por poesia. O primeiro poeta de que gostei foi Fagundes Varela, depois Cruz e Souza chamou minha atenção. Mas estou falando de poemas isolados. O primeiro poeta que li pra valer, livro inteiro, foi Drummond, e aí foi uma revelação. Aí foi que peguei a mania de escrever poemas. 

Em sua opinião, por que há tanta resistência por parte das escolas e de professores em ensinar (se é que podemos usar esse termo) e praticar poesia?
A poesia parece fácil, mas não é. Ela não se restringe a um arranjo de palavras, tem toda uma tecnologia lá no poema, e para desvendá-la aos alunos você primeiro precisa gostar. E gostar realmente de poesia é difícil. A educação dos cinco sentidos, como escreveu Marx, foi um trabalho para toda a história da humanidade. Aventurar-se no mundo sem fórmulas prontas, enfrentar o mistério da linguagem, requer disposição para enfrentar o mistério da vida. E é muito mais cômodo acreditar em ideologias, em conjuntinhos de repostas prontas, mesmo que no fundo todo mundo tenha um grande mal-estar por intuir que esses catecismos ideológicos são mentirinhas para adular a sua preguiça mental.

Vivemos em uma sociedade alienante em que tudo é visto pelo viés do lucro. Poesia não dá lucro (no sentido econômico). Seria este o principal motivo da poesia estar cada dia mais distante da vida do ser humano?
Esse é um motivo, mas acho que o principal é a falta de espírito de aventura. O mundo burguês se estrutura em torno da tentativa de abolir o risco, mas a vida é puro risco. A poesia consiste em estar disposto, o tempo todo, a fazer tabula rasa do que a gente sabe de si e do mundo. Por isso é que ela é intrinsecamente subversiva, porque todos os esquemas sociais querem indivíduos previsíveis, que não questionem nada a fundo.

Em Homo hereticus você, de maneira prazerosa e curiosa, em poemas curtos, dá pitadas críticas à realidade e ao cotidiano, desvelando hipocrisias com seu poder de concisão e mordacidade ao mesmo tempo. Em sua vida pessoal você também é assim? Ou seja, penetrante e sem rodeios, às vezes mesmo cortante quando necessário?
Olha, eu não perco o sono fazendo o inventário de todo mundo que não gosta de mim. Costumo dizer que não sou candidato a nada. Então, na vida sou mesmo assim, embora às vezes me segure, até para não ofender pessoas que não merecem nem precisam ser ofendidas. Mas eu costumo, sim, ser direto e desabrido, econômico e muitas vezes rude. Só que também é possível ser doce e amoroso com poucas palavras, né?

Sim, e isso é uma característica sua também. Gentileza, docilidade… Quem o conhece sabe disso. Em seu livro você dá lambisques apimentados sobre várias questões, inclusive as que envolvem religiosidade. Você concorda comigo que para escrever poesia é preciso ter uma autoestima bem estruturada, uma vez que para escrever não se pode ter receio da opinião alheia, do que o senso comum vai pensar?
Depende do tipo de poesia. No meu caso, como eu escrevo em primeiro lugar para mim mesmo, não tem outro jeito. Autocomplacência pra mim é o pior dos pecados. Mas óbvio que não posso condenar por isso as pessoas que não sabem o que é ser autocomplacente. Eu, infelizmente, sei.

Em uma entrevista, o cineasta Pedro Almodóvar, em sua fala, dá a entender que, para escrever é preciso deixar de lado todos os moralismos (pseudomoralismos), e deixar fluir os pensamentos de maneira que a criatividade não seja afetada por censuras e conveniências sociais. Concorda?
Sim, totalmente. É como escreveu o Oswald: ver com olhos livres. Isso quer dizer exatamente ver como uma criança, sem nenhum preconceito. E toda a nossa educação trabalha para podar as crianças, adequá-las ao modo utilitarista de ver a vida, que tem porque tem que ser o único.

Como você vê o posicionamento de uma escola que não prioriza a literatura, as artes, e, em especial a poesia? É frustrante para você, escritor e poeta, perceber que essa ainda é uma realidade na maioria das escolas brasileiras?
Mais frustrante é saber que a maioria dos professores gasta seu precioso domingo vendo o programa do Faustão. Enquanto o magistério for composto não só por um proletariado econômico, mas por um proletariado mental como é hoje, a escola que teremos é essa mesmo, que forma iletrados com as habilidades mínimas para operar um computador. 

Acredita que quanto mais cedo o aluno passa a ter contato com a poesia, mais cedo ele se desenvolve, adquirindo uma melhor e mais profunda compreensão da realidade, uma percepção melhor das coisas e do mundo, um senso estético literário mais apurado e um maior desenvolvimento cognitivo e emocional?
Acredito muito nisso. A poesia, a arte em geral, impede que a humanidade do sujeito seja necrosada. A arte como forma de indagar sobre nós mesmos e o mundo é a única coisa que pode manter o homem humano. Mas estou falando de arte, não de produtos simplórios fabricados com a intenção primeira de vender, e vender muito.

“Mais frustrante é saber que a maioria dos professores gasta seu precioso domingo vendo o programa do Faustão”, Eloésio Paulo

Qual seu próximo projeto literário?
Estou escrevendo o “Pequeno guia do romance brasileiro”, que consiste em ler, um por semana, os principais romances brasileiros. Tenho muita poesia na gaveta, alguns contos que podem virar livro e um romance que provavelmente só vou sentar para escrever daqui a uns cinco ou dez anos. Mas ele está quase inteiro na minha cabeça e em um monte de anotações. E este ano vou lançar também meu primeiro livro eletrônico, entrando nesse ignoto galinheiro editorial. (risos).

Fonte: Alfenas Agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

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