Alfenas Agora entrevista a filósofa de Alfenas, Ilma Manso

                                                                                    A “vida é um vir-a-ser permanente” (Heráclito)

Por Patricia de Oliveira

Quem somos? Para onde vamos? De onde viemos? A filosofia é uma porta para o conhecimento amplo da vida. Para conhecermos um pouco mais sobre a filosofia entrevistamos a filósofa Ilma Manso Vieira Mansur, de Alfenas – Sul de Minas. Ilma Mansur, ainda jovem foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou e estudou, licenciando-se em Filosofia, pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Mudou-se para Brasília, em função do trabalho, e lá se casou. 
Seu marido João Mansur, paulista e economista que se tornou Master Practitioner em PNL (Programação Neurolinguística), recebeu um convite da AMORC (Ordem Rosacruz) para ser seu Grande Tesoureiro, em Curitiba-PR. Lá viveram, trabalharam e viajaram em função do trabalho, dando cursos e palestras. 
Depois de aposentados se mudaram para o Rio e, depois, para Alfenas onde resolveram fixar suas raízes. Ilma passou a ministrar aulas de Filosofia para a Terceira Idade na Efoa/Unifal e a assinar uma coluna semanal no Jornal dos Lagos. Ficou viúva e se dedica à literatura escrevendo artigos, contos e crônicas.    
Escreveu Filosofia para Crianças, livro que foi editado e doado para escolas de Alfenas, Ecos da Filosofia – coletânea de   artigos publicados no Jornal dos Lagos, Cada Vida uma História – contos e Colcha de Retalhos – crônicas esparsas.  E ainda vários contos selecionados que estão publicados em antologias.

Alfenas Agora – Por que você resolveu cursar filosofia numa época em que a maioria das mulheres nem estudavam ou o máximo que fazia era magistério?
Ilma Manso Vieira Mansur – A Filosofia entrou no meu mundo do conhecimento com as aulas no curso Científico, administradas pela admirável Professora Madre Superiora Maria José, diretora do Colégio Sagrado Coração de Jesus – de Alfenas.  Fui aluna daquele Colégio nos anos 1954 a 1956.   Suas aulas exerciam sobre mim grande fascínio e tinha efeito ‘terapêutico’. Em janeiro de 1957 fui para o Rio de Janeiro, e não sabia qual o caminho universitário seguir. Optei pela Filosofia ao encontrar na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras do Estado do Rio de Janeiro (hoje UERJ), horário compatível com meu emprego e afinidade pela programação apresentada sobre o curso. Em 1958 era ‘caloura’ do Curso de Filosofia. Após quatro anos de curso, recebi os certificados de Bacharel e Licenciatura em Filosofia.

Sei que exerceu por longa data a carreira pública. Que desafios enfrentou em sua trajetória profissional e como a filosofia a ajudou a superá-los?
Sofri por ter formação em Filosofia. Mas não perdi a satisfação ao enfrentar desafios quando apresentava o meu currículo para candidata a um emprego. Uma passagem marcante foi quando um diretor de uma empresa multinacional leu meu currículo para um determinado cargo. E como ele não tinha cargo para aproveitar a minha rica bagagem de experiência e escolaridade, além de outros cursos e seminários que somavam no meu currículo. Então fui preterida e recebi do diretor a resposta: “Para que colocar alguém com curso de Filosofia? Não precisamos disso!” Fui rejeitada porque tinha um curso de formação e não de profissão. Mas em nenhum momento lamentei por não ter cursado algo que me garantisse uma profissão. Mais tarde resolvi fazer Direito. Mas o final do caminho foi cortado por outros interesses. A Filosofia ajudou-me a enfrentar os desafios que se me apresentavam. Ela questiona, reflete e nos dá um saber superior. É a arte de pensar por si mesma.

Muitas pessoas têm vontade de estudar filosofia, mas por ser uma profissão não muito promissora financeiramente, acabam escolhendo cursos que dão um melhor retorno. Com a filosofia clínica essa questão pode mudar. O que pensa sobre?
Quem tem vontade de estudar Filosofia e ainda não tem uma profissão é melhor deixar o curso de Filosofia para segunda realização. Tomei conhecimento da Filosofia Clínica e participei de alguns seminários com o médico e filósofo Lúcio Packter, introdutor da filosofia clínica no Brasil. Ela veio para auxiliar os seus ‘partilhantes’ (nome dado aos seus clientes) nos casos de angústia, paixão, confusões mentais, problemas existenciais, usando a historia de vida pessoal do partilhante. A filosofia clínica usa os escritos dos filósofos. Lembramos que a Filosofia é pai e mãe das disciplinas que trabalham com os problemas psíquicos.  Sócrates, por exemplo, questionava as pessoas que frequentavam a Praça de Ágora (Atenas) sobre os acontecimentos do cotidiano que surgem em suas vidas. De cada resposta recebida, ele fazia nova pergunta, até que o interrogado chegasse à luz de sua própria compreensão.  E no aprender a ‘pensar’ por si mesmo, resultava em uma evolução da consciência. Filosofar é avivar a luz natural presente em nosso ser.  Não é preciso estudar filosofia para submeter-se à uma terapia com filósofo clínico.

Sabemos que a filosofia clínica, ainda muito desconhecida, é uma metodologia que aplica nas clínicas o ponto de vista filosófico para amenizar as dores da alma. Acredita que as pessoas possam em um futuro breve passar a procurar filósofos para tentar entender suas questões existenciais?
A filosofia clínica se expande com excelentes profissionais. Ela é tão benéfica quanto as terapias tradicionais. Somos amarrados nos problemas existenciais e com eles bem direcionados e auxiliados por profissionais ‘filósofos’, nos tornaremos mais humanos, mais avançados, com sabedoria e domínio diante as adversidades da vida. Acredito que nos grandes centros ela seja bem aceita e se encontra em expansão. 

Em sua opinião, os profissionais que atuam com a filosofia clínica poderiam, por exemplo, ser úteis em hospitais, clínicas, escolas e asilos, oferecendo auxílio terapêutico às pessoas que necessitam deste tipo de ajuda?
Certamente. A filosofia clínica, comprovadamente, é utilizada em consultórios, hospitais, escolas, na educação e saúde. Ela necessita da história de vida do partilhante, seguindo certa cronologia dos problemas existenciais do assistido, para melhor compreende-lo. Eu gostaria de ter sido uma profissional com toda a minha energia mergulhada nessa missão. Mas não houve tempo.

Ao contrário da psicanálise, este método de filosofia não explora questões sobre normalidade, doenças, patologias… Ao contrário, ela foca no histórico de vida do paciente: conceitos, juízos, raciocínio, leis do pensamento. A filosofia clínica pode conviver pacificamente, sem competir, com a psicanálise e com a psiquiatria?
A filosofia clínica não veio para competir. Ela veio para ajudar e somar.

Você é bacharel em filosofia, sempre convidada a palestrar e a escrever artigos sobre o tema. Acredita que toda pessoa deveria ter pelo menos uma noção do que é e do que pode fazer pelo ser humano o estudo da filosofia?
Como bacharel e licenciada em Filosofia, meu modo de vida e pensamento mudaram, e muito. Mesmo considerando o pouco tempo que exerci Filosofia no magistério, nunca a deixei de lado. Um curso avulso aqui, outro ali, outras aulas voluntárias etc. Só na Unati foram dez anos de aulas dentro da filosofia acadêmica. Percorri todas as etapas da História da Filosofia e temas diversos do mundo em que vivemos. Ela colocou-me diante da vida de uma forma compreensiva, tranquila, e com a maturidade levou-me ao caminho mais seguro, mais lúcido, além de ajudar muito no campo da cultura. E mais, vejo no saber a chave para o discernimento e uma vida mais enriquecida. E isto devo muito ao estudo da filosofia.  

Como pessoa, mulher, vivendo numa sociedade como a nossa, carregada de alienação, repleta de consumismo sem limites, a filosofia a ajuda a viver melhor, com uma compreensão mais profunda do que realmente vale nesta vida?
Bem. Vivemos mundos paralelos. De um lado o bem e do outro, o mal.  Como privilégio, nasci para o bem e por ele procuro ser cada vez melhor. É triste assistirmos o outro lado, onde pessoas se lançam em comportamentos decadentes e não ‘acordaram’ para apreciar a beleza que nos cerca.  São seres que se divertem com a maldade, com a destruição, com a pequenez humana. A “vida é um vir-a-ser permanente” – já dizia Heráclito, filósofo pré-socrático.  Encontrei o melhor caminho não só na filosofia acadêmica que é nobre, como também em outras filosofias que elevam o ser humano e espalham a sua sabedoria. Aristóteles (séc. V a.C) dizia: “A Filosofia é a Rainha das Ciências”. Não há dúvida, ela ajuda a viver melhor e vale a pena colocar mais luz nas sombras da vida.
                        
Que orientação você poderia dar aos jovens que desejam cursar filosofia ou que querem ter um conhecimento maior do mundo e de si mesmos?
Para os jovens eu digo: – Não deixem adormecer os seus potenciais. Façam uso da inteligência que a Mãe Natureza lhes ofertou e construam a vida como se fosse uma obra de arte. Corram atrás de seus sonhos e estejam certos, eles nunca envelhecem. 

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“A Filosofia ajudou-me a enfrentar os desafios que se me apresentavam. Ela questiona, reflete e nos dá um saber superior. É a arte de pensar por si mesma” 

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“Filosofar é avivar a luz natural presente em nosso ser” 

Fonte: Alfenas Agora.
 

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