Papelão movimenta economia e imaginação em Maria da Fé, MG

Os dedos trabalham com cuidado sobre o molde. Deslizam pelas laterais, pressionam imperfeições, criam desenhos. Em um primeiro momento, é difícil acreditar que a massa leve, cinzenta e gelada possa se tornar bancos seguros de se sentar ou esculturas de parede que se assemelham a ferro. Mas em Maria da Fé(MG) nada parece ser difícil. É na cidade com cerca de 22 mil habitantes, no meio do trecho da Serra da Mantiqueira que corta o Sul de Minas, que o papelão vira peças decorativas e móveis ganhadores de prêmios nacionais e internacionais.

Há 16 anos, Maria da Fé fazia sua maior aposta em meio a sua maior crise. Moradores contam que a queda no preço da batata, principal cultura do município até então, levou à falência muitas famílias. Centenas de pessoas se viram desempregadas do dia para a noite. O final dos anos 1990 se mostrava incerto para quem estava acostumado a tirar o sustento da terra. Sem futuro aparente, como as caixas de papelão abandonadas todos os dias na porta das pequenas lojas, a saída era buscar inovação com os recursos que estavam ao alcance.

O hoje designer Domingos Tótora foi o precursor dessa mudança. Na época, Tótora dava aulas de artes para crianças. Reinventar o dia a dia já era uma prática bastante conhecida do professor e foi fácil para ele perceber que um material abundante e desprezado na cidade tinha potencial para se tornar uma fonte de renda. O que ele não imaginava era a guinada que a descoberta daria em sua própria vida.

“Foi preparando as aulas que descobri a massa de papel. Desenvolvi atividades com as crianças, elas montaram maquetes e eu guardei um pouco dessa massa, que era feita com o papelão triturado, dessas caixas que o pessoal joga na frente do mercado”, relembra Tótora. “Essa massa eu resolvi moldar em um pratinho e do resultado eu gostei muito. Eu comecei ver a plasticidade do material, a resistência da matéria. Eu nem sabia que ia virar o que virou”, conta.

Papelão triturado, molhado e misturado com cola branca. A insólita base colocou a pequena cidade sulmineira no mapa do design de móveis contemporâneos. Aliando arte e função, as peças estão espalhadas por vários países, como China, Itália, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Adornam galerias, dão charme a diversos ambientes.

Com a fórmula simples e um universo de ideias, Domingos Tótora já recebeu o Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira na categoria mobiliário em 2010, Prêmio TOP XXI na categoria design sustentável, que conta com o apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e foi um dos 100 artistas selecionados a expor no Museu do Design de Londres, na Inglaterra, pelo Brit Insurance Designs of the Year 2011, considerado o Oscar do design mundial.

O sucesso de Tótora está longe de ser solitário. “Toda a vida trabalhei com arte, mas o que alavancou essa história em Maria da Fé foi o “Gente de Fibra”. Foi por intermédio deles que a ideia ganhou fama”, relata.

Gente que inova
Gente de Fibra é o nome do projeto desenvolvido pela Cooperativa Mariense de Artesanato desde 1998. A proposta começou por incentivo do Sebrae que, em parceria com a prefeitura, começou a trabalhar na criação de um roteiro de turismo rural, um segmento que aproveitaria as tradições da cidade para adaptá-las às mudanças de mercado.

Nesse contexto, a criatividade de Tótora obteve espaço. O professor se juntou a cinco mulheres e deu início aos experimentos com a nova fibra. “O papelão usado não pode ter nenhuma mancha ou óleo, por isso pegamos o que tem como matéria-prima, o chamado papel craft, usado, geralmente, para fazer caixas”, explica Érica Aparecida Campos, responsável pelo setor administrativo do projeto Gente de Fibra.

Érica costuma acompanhar os visitantes em um tour pelo ateliê do projeto, na Avenida Teodomiro Santiago. Na entrada, um pequeno quintal, onde pratos decorativos secam ao sol como se feitos de barro. Em um cômodo ao lado, está a oficina destinada ao corte das peças. Na outra ponta, a sequência de salas nas quais é possível ter uma ideia de como acontece o processo produtivo.

“Todos os equipamentos são industriais”, mostra a cicerone das artesãs. “No liquidificador, o papelão é triturado com água e segue para a prensa. Uma vez prensado, ele é guardado em blocos”, diz, apontando os paralelepípedos que se assemelham a cimento em um canto da sala de matéria-prima.

“Não fazemos estoque das peças. A produção é de acordo com a demanda e assim, na medida do necessário, os blocos são cortados e seguem para a batedeira”, aponta Érica para o equipamento que chega a 1,5 m de altura. Na batedeira industrial, o papelão recebe a cola branca, igual à que as crianças usam na escola. Batido, o material é entregue às artesãs.

A sala de transformação da fibra é separada do setor de preparo da matéria-prima por um corredor e uma ala de expositores, na qual se destacam os produtos que conferiram ao Gente de Fibra o prêmio de 2010 do Programa Caixa Melhores Práticas e o Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato no ano de 2012. Há pratos decorativos em vários tamanhos, alguns formam um imenso mural. Pequenas luminárias e enfeites de parede compõem o ambiente e preparam o visitante para novas surpesas.

Terra e bananeiras
As mãos que moldam o papelão, que agora deixou de se assemelhar ao cimento, pertencem a 18 associados, entre homens e mulheres. Eles trabalham cerca de 8 horas por dia para garantir que as entregas sejam feitas dentro do prazo. Algumas peças resultam do esforço de um único artesão. As maiores seguem um processo mais próximo do fabril, com a divisão de tarefas, afinal, a matéria-prima das peças é apenas um aspecto do espírito engenhoso do mariense.

Além de reaproveitar o papelão, a terra do chão batido fornece o pigmento que tonaliza muitos dos objetos e certos acabamentos são feitos de folha e tronco de bananeira. Cozida e trançada, essa fibra lembra uma cana de açúcar, vira pequenas cordas e até uma espécie de papel. Encanta mais uma vez os olhos.

Identidade própria
E se o trabalho do Gente de Fibra desperta a curiosidade, surpreendem ainda mais os desdobramentos que a história teve desde que Tótora e as artesãs se arriscaram no inusitado empreendimento. A origem comum não impediu o aparecimento de uma identidade que possibilitou que cada um seguisse seu próprio caminho.

O antigo professor agora é um reconhecido artista plástico. Cria coleções adquiridas por grandes galerias. São vasos, mesas cadeiras. Atualmente, integra uma exposição que viaja por vários países e agora está na Bahia. Até o final do ano, terá seu trabalho apresentado em uma galeria de arte contemporânea prestes a abrir em Londres.

Enquanto o Gente de Fibra cultiva características rústicas que ainda o mantém bastante ligado ao papel, à banana, à terra, Tótora flerta com a cerâmica. “Meu trabalho tem muita proximidade com a cerâmica. Eu gosto muito disso. Eu coloco a peça no forno, ela queima e, depois de pronta, passo uma cera. Eu gosto muito de formas puras, o essencial, a pureza da forma. Esse é o grande lance, a síntese, nunca o excesso”, diz o designer.

Voltado para a arte em mobiliários, Tótora justifica suas escolhas pela preferência em brincar com a noção de matéria. “Meu trabalho é a matéria bruta, pesada. E o meu trabalho não tem pele. É a carne à mostra, é a matéria à mostra. A única tinta que eu uso é o pigmento de terra natural, que fica entranhado na massa. Ele não é a pele, ele é a carne”, explica.

Forte como ferro
Mas se para o precursor de todo esse movimento a similaridade com a terra é uma obsessão, para outro artesão, João Paulo Raimundo, expressar a resistência do papelão na aparência de suas peças é sua grande ‘sacada’. Raimundo é um dos herdeiros do Gente de Fibra. Ele integrou o projeto durante sete anos até decidir abrir um ateliê.

Para ele, a resistência do papelão se assemelha à do ferro. Impactar o público com uma solução inventiva para mesclar conceito e matéria é quase uma missão. “Um banco de papelão suporta até 200 Kg. É muito forte”, garante. “Eu fazia parte de um grupo que trabalhava só com papelão e fibra de bananeira. Eu queria algo diferente. Comecei a mexer com casca de eucalipto”, conta.

Da casca do eucalipto, João Paulo Raimundo retira o pigmento que confere um tom ferroso à estrutura de luminárias e a objetos de parede que mexem com o lado místico das pessoas. “Eu decidi apostar em outro segmento e procuro deixar que meu público me diga o que quer. Eu não trabalho com lojistas, porque isso me obrigaria a fazer uma produção em série. Eu não consigo trabalhar assim. O público final não. Ele se encanta, ele se surpreende”, avalia.

Sem limites
Uma peça de Maria da Fé, raramente, sai por menos de R$ 200. Encomendas do exterior são frequentes. A produção artesanal é frenética. No entanto, quem passa por suas ruas silenciosas mal suspeita que ali a criatividade de seus moradores é ilimitada. Talvez seja esse o aspecto que alimenta o talento de seus artesãos. “É muito prazeroso pensar que você pode viver em uma aldeia e ser universal”, garante Tótora.

FONTE: G1 SUL DE MINAS

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