Câncer de mama – entrevista com o gineco-obstetra e mastologista Dr. Luiz Augusto Ferreira Santana

DR. LUIZ AUGUSTO FERREIRA SANTANA, MÉDICO COM ESPECIALIZAÇÃO EM GINECO-OBSTETRÍCIA E MASTOLOGIA, DIRIGE VÁRIOS CENTROS ESPECIALIZADOS NO RIO DE JANEIRO, ENTRE ELES O CENTRO-MÉDICO GYNE CARE BARRA, O CENTRO MÉDICO SANTANA, A OBSTETRÍCIA DO HOSPITAL LOURENÇO JORGE-LEILA DINIZ, A MASTOLOGIA DO HOSPITAL FEDERAL DO ANDARAÍ, A GINECOLOGIA E MASTOLOGIA DO HOSPITAL DA MULHER EM SÃO JOÃO DE MERITI. UM PROFISSIONAL ESTUDIOSO, QUE FAZ UM ALERTA SOBRE CÂNCER DE MAMA. DR SANTANA É CASADO E PAI DE GABRIELA.

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O mês de outubro, conhecido por “Outubro Rosa”, é dedicado exclusivamente a prevenção do câncer de mama. Neste mês todas as mulheres entre 40 a 69 anos de idade são estimuladas a fazer o exame mamográfico.

Qual o índice de câncer previsto para este ano?
Dr. Luiz Augusto Santana – O câncer de mama é hoje a segunda patologia oncológica feminina, só perde para o câncer de pele, mas é o primeiro em câncer genital da mulher. A previsão do INCA para este ano é que 50.000 mulheres tenham a doença, sendo que o Rio de Janeiro é o primeiro no Brasil, proporcionalmente ao número de habitantes.

Por que esse número tão expressivo de mulheres que terão a doença? E quais os motivos para o Rio de Janeiro ser o primeiro Estado em número de mulheres com câncer de mama?
Com a campanha de rastreamento universal do câncer de mama, as mulheres estão fazendo mais exames de mamografias, então descobrem-se mais mulheres com câncer e por isso esse número expressivo. No entanto, com a massificação da realização da mamografia, cerca de 30% dos casos de óbito da doença no mundo declinaram. Existe uma lei federal de 2008, aprovada pelo presidente Lula, que dá o direito a toda mulher acima de 40 anos realizar o exame pelo SUS. Apesar de existir essa lei, muitas desconhecem e não cobram. Em relação ao Rio de Janeiro ter um número grande incidência, é pelo fato de ser o estado brasileiro de maior miscigenação. Outro ponto é a urbanização. Além disso, o Rio é centro cultural, de vanguarda, onde ocorreram as revoluções femininas. A mulher moderna não quer engravidar cedo, não quer amamentar, porque vai ficar com o seio flácido – tenho várias pacientes que dizem isso. O culto à beleza se faz muito presente na cultura da cidade.

Quais são os fatores predisponentes do câncer?
Em primeiro lugar, o fator da hereditariedade: de 8 a 10% dos casos de câncer de mama são por predisposição familiar. Mesmo parecendo um número pequeno, as mulheres deste grupo, independente do parentesco, têm uma tendência maior a desenvolver câncer de mama. Outro fator importante é que o câncer de ovário tem correlação com o câncer de mama, porque o marcador tumoral – micromoléculas presentes no sangue e no tumor, utilizadas para rastreamento de metástase – é semelhante. Pacientes que têm câncer de mama têm risco de ter ovário e vice-versa. A ingestão de gordura animal e bebidas alcóolicas em excesso também é outro fator de risco. Pacientes obesas possuem mais chances de ter câncer de mama. Isso ocorre porque as células adiposas têm a capacidade de acumular estrogênio, hormônio feminino, que é responsável pela nutrição da maioria dos tumores mamários. É o que chamamos, na medicina, de receptor positivo. A progesterona é outro hormônio que também é receptor positivo. Mulheres que estão tendo filhos mais tarde, e com isso amamentado tarde, também fazem parte de um grupo considerado de risco para desenvolver câncer , pois as células mamárias somente completam o seu ciclo de maturação com o aleitamento. Por fim, a utilização do estrogênio no período menopáusico por mais de 10 anos. Embora a reposição hormonal diminua a incidência de outras patologias, além de proporcionar bem-estar `a mulher, o seu uso por mais de 10 anos aumenta o risco de câncer de mama. No entanto, é um risco menor porque a paciente está sendo monitorada pelo médico. As orientações gerais preconizadas pelo INCA para diminuição do câncer na mulher são: caminhar quatro vezes por semana em ritmo acelerado durante trinta minutos, restringir a ingestão de gordura animal, reduzir ou parar de fumar, não ingerir bebida alcóolica em demasia, praticar exercícios físicos em ambiente aberto e tomar sol no horário recomendado.

Uma das formas de detectar câncer de mama é através do autoexame. Porém, quando o diagnóstico é feito por esse método, é porque o nódulo já está em fase mais avançada. Quando e como detectar precocemente um possível tumor?
Exatamente. O autoexame de mama não serve para fazer o diagnóstico precoce, isso é detectado pela mamografia. O autoexame não é recomendado como método de rastreamento de câncer de mama, porque quando há diagnóstico, a lesão já está em 2 cm. Ela entra na política nacional de rastreamento da doença porque o Brasil não tem condições de fazer a a mamografia em todas as mulheres acima de 40 anos por faltas de recursos – se fizer, o SUS “quebra”. Por isso, ele é importante, porque é uma forma de rastrear, já que muitas mulheres não conseguem realizar a mamografia (que é um direito). Através do autoexame, são identificados 70% dos casos, e ele deve ser feito mensalmente após a menstruação, a partir de 20 anos de idade, para que a mulher já comece a se familiarizar com seu corpo. Mulheres entre 40 e 50 anos devem fazer mamografia a cada dois anos. Mulheres acima dos 50 devem realizar o exame anualmente. Já a mulher com 35 anos deve fazer a sua primeira mamografia de base, para guardar, mesmo que esteja assintomática. É importante ficar atento à qualidade dos aparelhos, se são atestadas pela Sociedade Brasileira de Radiologia, pois se forem mamógrafos de péssima qualidade, pode haver falha. O número de mamografias diagnosticadas com erro devido a esses aparelhos e por médicos mal qualificados corresponde a aproximadamente 15%, um dado significativo.

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Quais foram os avanços no tratamento do câncer de mama?
Hoje em dia, com a pesquisa do linfonodo sentinela, esses gânglios são retirados durante a cirurgia, sendo avaliados naquele momento para saber se foram comprometidos pelo tumor, é um avanço substancial, porque poupa 98% das pacientes no que diz respeito ao esvaziamento das axilas. Em pacientes com tumores menores que 3 cm, sabe-se que 98% das axilas o resultado é negativo, ou seja, a doença não passou para aquela região. Antigamente esvaziávamos 100% das axilas, gerando mutilação nas pacientes, não só pela subtração da mama, mas também pela retirada dos gânglios, como parte do tratamento do câncer. Isso acabava prejudicando a qualidade de vida daquela mulher.

Quais são os sintomas mais frequentes do câncer de mama?
O primeiro é o aparecimento do caroço. Também há o abaulamento ou retração da mama. O tumor pode crescer externa ou internamente, para dentro do tórax, ele puxa a mama. Secreção parecida com água de coco ou presença de sangue são dois sinais indicativos, sendo este último um dos mais perigosos. Outro sintoma é uma lesão descamativa, que parece uma micose, coça e fica restrita ao mamilo. Mas isso ocorre em 2% das mulheres, já que é um câncer raro.

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Fonte: Dr. Luiz Augusto Ferreira Santana

 

 

 

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2 thoughts on “Câncer de mama – entrevista com o gineco-obstetra e mastologista Dr. Luiz Augusto Ferreira Santana”

  1. Maura Sá disse:

    Fantástico, muito elucidativo

  2. Tatiana Arantes disse:

    Amodorooooo Dr santana, super simples, humilde, pé no chão.

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