Agricultores se preparam para temporada de azeite no Sul de Minas

Os termômetros ultrapassando os 30°C nas primeiras semanas de outubro destoam do clima frio que dá fama a Maria da Fé (MG), mas têm feito a alegria dos agricultores. As temperaturas mais altas e o clima úmido depois do inverno marcado por geadas são os ingredientes que faltavam para garantir mais um ano produtivo para a safra de azeite. Logo as miúdas flores que adornam as árvores de pequeno porte espalhadas por bairros rurais e ruas do centro da cidade sulmineira começarão a gerar as azeitonas usadas na extração do óleo.

“Do jeito que vai, vamos chegar a 50 mil litros na safra de fevereiro de 2015”, comemora o presidente da Associação de Olivicultores, Nilton Caetano de Oliveira. “Estamos na fase final da floração das oliveiras e nesse período tem que fazer calor”, explica.

A 1.200 metros de altitude, no meio da Serra da Mantiqueira, está o coração de uma promissora produção. Seis anos atrás, Maria da Fé comemorava a primeira extração de azeite extra virgem genuinamente brasileiro. A acidez baixíssima, que chega a 0,2%, coloca o óleo nacional entre os melhores do mundo, de acordo com os pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).

“Na década de 1940, a fazenda experimental instalada aqui em Maria da Fé começou a desenvolver pesquisas para adaptar as oliveiras à região. Foram criados cultivares novos que hoje são característicos do Brasil”, conta o engenheiro agrônomo Adelson Francisco de Oliveira.

O trabalho da Epamig mostrou que o clima do município com cerca de 14 mil habitantes, que tem inverno e verão bem demarcados, se assemelha ao ambiente que favorece as tradicionais plantações de oliveiras no Mediterrâneo. Depois de décadas de estudo, os pesquisadores da fazenda experimental sediada em Maria da Fé conseguiram fazer as adaptações necessárias para que a cultura do azeite vingasse também longe da Europa.

Adelson fez parte dessa equipe, hoje integrada por novos pesquisadores como Luiz Fernando Oliveira, coordenador do núcleo tecnológico de azeitona e azeite da Epamig de Maria da Fé. É ele que, muitas vezes, acompanha os visitantes por um passeio pelas 15 mil oliveiras plantadas em uma área de 20 hectares.

“Aqui cuidamos de todas as etapas da produção do azeite, do manejo da planta ao processamento do óleo”, mostra Luiz. “O azeite não é como o vinho, que, quanto mais velho melhor. Para ter qualidade, ele precisa ser fresco. Por isso a acidez do azeite da nossa região é pouco ácido, porque fazemos a extração em menos de 24 horas após a colheita”, observa.

Inspirando o mercado
Berço do primeiro azeite inteiramente nacional, Maria da Fé já não está mais sozinha nesse mercado. Na cidade, é beneficiado em torno de 60% do azeite produzido por toda a região abrangida pela Associação de Olivicultures, que conta com 45 associados espalhados pelo Sul de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, todos na Serra da Mantiqueira.

Mas é Maria da Fé que atrai centenas de turistas interessados em conhecer esse segmento ainda domigado por países como Espanha, Itália e Grécia. Os pesquisadores da Epamig acreditam que o sabor frutado e o delicado verde que caracterizam especificamente o azeite do município sulmineiro cabam garantindo o destaque. Por mais que a tecnologia ajude a obter plantas com melhor qualidade, o manejo e os tipos de solos e clima também são fatores determinantes na produção de azeite.

Apesar do sucesso e do pioneirismo, nem Maria da Fé nem a região produtora à qual pertence ainda conseguem extrair o óleo em grande escala. A maior parte das plantações é recente e uma oliveira leva em média 20 anos para alcançar seu potencial produtivo. Uma aposta que requer paciência do produtor, mas compensa, segundo o empresário Hugo Gonçalves.

De olho na história e no futuro
Formado em turismo, Hugo lecionou sobre turismo rural e gastronomia até descobrir o potencial da olivicultura. Acompanhando o avanço das pesquisas feitas pela Epamig, ele e um primo montaram a Oliva Brasil no ano de 2005, uma empresa especializada na comercialização de mudas. “O azeite de qualidade é um produto bastante valorizado. E não só o azeite em si, mas a própria oliveira, que pode servir de enfeite. Além do mais, uma cultura que eu descobri que tem muito a ver com a história de Maria da Fé”, relata Hugo Gonçalves.

Alguns exemplares de oliveiras que enfeitam a rua principal de Maria da Fé datam de 1905 e são de origem portuguesa. Fazendo um resgate histórico, Hugo descobriu que o próprio tataravô, 30 anos antes, já havia investido em plantações de azeitona. “Há 140 anos, meu tataravô já conhecia essa árvore que hoje promete tanto para a nossa cidade, uma planta tão cheia de qualidades, usada em chás, produtos de beleza, alimentos e artesanato, com um forte simbolismo religioso… logo poderemos pensar no turismo do azeite”, estima.

Na safra 2013/2014, 6 mil litros de azeite foram beneficiados pela fazenda da Epamig na cidade. Envasado em garrafas de 250 ml ao preço unitário de R$ 35, o óleo precioso atraiu tantos consumidores no festival gastronômico realizado no primeiro semestre deste ano que os primeiros 100 litros produzidos foram vendidos logo na abertura. “Foram 400 garrafas embora”, garante Hugo.

O sucesso estimula os produtores a buscarem o reconhecimento de uma marca. A Associação de Olivicultores de Maria da Fé e a Epamig fazem esforços para conseguirem o registro. Um laboratório começou a ser montado na fazenda experimental para a realização de testes que assegurem o padrão de qualidade do azeite de Maria da Fé.

Fonte: G1 Sul de Minas

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