Valdir Luna e a Tragicomédia em Alfenas

Por ADELMO SOARES (Clic Folha)

O Valdir Luna Carneiro, autor global consagrado nacionalmente, montou um grupo de teatro em Alfenas -década de 60- e escreveu uma peça de magnífica dramaticidade, explorando o antagonismo doentio de dois irmãos, exacerbado por uma teia de intrigas envolvendo amores disputados, falsidade e ciúmes.

Com plano de fundo freudiano, o texto foi entregue, em desafio, a dois atores que, até aquele momento, somente haviam atuado em espetáculos humorísticos, mesmo porque, natural e cotidianamente, eram hilários: Raul e Alaor Pit.

Consagrados na comédia, resolveram testar a versatilidade, empenhando-se profundamente nos novos papéis lacrimativos. Leram exaustivamente, estudaram detalhes e personagens para lhes dar vida e credibilidade e passaram à fase dos ensaios de palco, dirigidos pelo Luna que, satisfeito, julgara ter encontrado dois Paulos Autran.

Três meses depois, enfim, pronto!

Estréia marcada, ampla publicidade, primeira apresentação, casa lotadíssima, todos queriam conferir com os próprios olhos a transformação radical que se operaria nos dois atores e, quando abriram-se as cortinas, realmente notaram, logo nas iniciais falas, seriedade e postura dramática, deixando-se envolver pelos diálogos pesados e hiper-realistas.

O enredo se resumia na destruição da harmonia entre dois irmãos fazendeiros, num crescente ódio, culminando no último ato com o fraticídio.

E como souberam criar o clima! Semblantes fechados e significativos, deixavam transparecer macabra aura de rancor e ojerisa mútua, envolvendo o público nos mesmos sentimentos em identificação osmótica; com o passar das cenas ninguém via mais o Alaor e o Raul, mas dois rivais consanguíneos que se digladiavam.

A pressão aumentava, corações descompassados, atenção pregada no tablado podendo se ouvir sem dificuldades os mínimos sussurros dos atores, tal o silêncio, quebrado apenas por esporádicos soluços e do farfalhar de lenços enxugando lágrimas emocionadas.

Ao aproximar-se o desfecho, o ar estava irrespirável e alguns, mais preocupados, vigiavam de soslaio os familiares portadores de doenças cardíacas.

Na cena final, o Alaor, após ameaças cruéis num frenesi absoluto, apoderar-se-ia de um punhal, cravando-o no peito do Raul (a lâmina destas armas entra de volta no cabo e o atingido leva as mãos ao local do ferimento, estourando um pequeno saquinho de corante vermelho que se espalha pela camisa).

Cenário despojado, composto por mesa, quatro cadeiras e acanhada cômoda com duas gavetas. Iluminação branca e intensa, realçando a lividez das maquiagens.

Pois bem, colericamente o Pit berra:

– “ Vou matar-te agora, desgraçado!”

E abre uma das gavetas para pegar o punhal. Vazia… Abre a outra… Nada dentro… (“Desgraçado é o contra-regra!”) Olha para os lados da coxia. Ninguém (o pessoal já preparava a comemoração do sucesso nos camarins).

Raul, impávido, aguarda a própria morte enquanto o companheiro matutava outra forma de matá-lo. Enforcamento nem pensar, porque havia desproporcionalidade de tamanho. Nenhum objeto contundente letal ao alcance.

Desesperado, notando que a assistência se apercebia do inusitado, aproxima-se do parceiro e mete-lhe um chute com força na canela. Com a dor (real), Raul se curva esbarrando numa cadeira e rompe o saquinho de corante, esparramando o “sangue” pelo peito. Deita no palco, arfante, num último esforço leva a mão a canela e, com entonação solene, empostada, shackespereana, dispara:

– “Morro! Morro sim, pois as vossas botas estão envenenadas!”

E tombou o pescoço. O Alaor mira suas botas espantado.

Cai o pano! Fim.

Diante de tamanho surrealismo, a platéia aplaudia de pé, interminavelmente e chorando… chorando… de tanto rir!!!

O Luna arquivou a peça, projetando nova comédia.

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